O prazer de varrer as folhas
Recentemente fiz uma pequena viajem a São Paulo. Estive surpreso com a imensidão do lugar e de perceber a infinidade de pessoas que se aglomeram em pequeníssimas áreas. Nunca havia parado para pensar o que representa um edifício: imaginei centenas de pessoas tentando viver em uma área de cinqüenta metros quadrados no século XIV, e com isso aprendi alguns valores que pensava já conhecer.
O quão somos nos, habitantes de pequenas e médias cidades, privilegiados por podermos, ainda, sentir o cheiro das árvores que as vezes emana pela manhã e em alguns dias sermos obrigados a varrer as folhas secas que se espalharam com o poder dos ventos pelo quintal, terraço ou pela calçada! Percebi que essas coisas contribuem para a vida com uma medida muito maior daquela que é normal se pensar. Talvez por fazerem parte do cotidiano natural do homem primitivo, como se a importância do contato com a natureza fosse uma herança que aflora os instintos e nos ajuda a compreender a vida.
E estas pessoas que “vivem em seus rápidos” como escreveu Saint-Exupéry, não são mais capazes de perceber a falta que faz a elas o contato com a natureza, ou seja, como o que é natural, com aquilo que não foi modificado pelo homem e por isso é expressão direta de Amor. Entendi que a falta de tempo, a falta de espaço e outras tantas faltas faz mais difícil viver o Amor nas grandes cidades. Mas em compensação, expandi meus horizontes e questionei: se é tão fácil para essas pessoas terem conhecimento de qualquer coisa ou sobre qualquer parte do mudo, por que não conhecem o verdadeiro Amor!?
Tais descobertas a um tempo atrás me transformariam na pessoa mais triste de qualquer lugar que fosse. Mas hoje sou capaz de alegrar-me por tais motivos, pois fui capaz de enxergar a dimensão do mundo que necessita da minha ajuda. E uso o pronome possessivo não com uma atitude prepotente ou egoísta, mas de compromisso! Pois a medida dos nossos sonhos deve ser a medida da mudança que o mundo precisa.
- Eles estão com muita pressa? – disse o principezinho – o que é que estão procurando?
- Nem o homem da locomotiva sabe – disse o guarda chaves – (...) não perseguem nada. Estão lá dentro dormindo ou bocejando. Só as crianças esmagam o nariz nas vidraças.
- Só as crianças sabem o que procuram – disse o principezinho(...)
- Elas são felizes – disse o guarda chaves.
(Sain-Exupéry, Antoine – O Pequeno Príncipe)


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